[ editar artigo]

Como cuidar na clínica do anseio e das dores da paixão?

Como cuidar na clínica do anseio e das dores da paixão?

( parte 1)

Li uma entrevista de um escritor suíço no Estadão que afirmou que os problemas ligados à paixão amorosa poderiam ser amenizados por uma  maturidade emocional e uma educação emocional, como se o resultante  controle  cognitivo das nossas impulsividades e expectativas nos trouxesse mais paz. Ah, se fosse assim...

Essa entrevista me fez lembrar de como os clientes tem trazido suas questões e infelicidades amorosas e como podemos compreende-las de forma mais experiencial para que seja mais transformadora nossa relação clinica. 
A responsabilidade do que estou falando é minha, mas a visão da condição humana em que me baseio é de Gilberto Safra, professor titular de Psicologia Clinica  da USP.

Por exemplo, muitas pessoas trazem para a clínica o desejo de uma paixão correspondida. De um lado poder sentir a paixão nas entranhas, respirar a vida a partir de uma paixão, de outro ser correspondida. Este parece ser o ideal maior.  Como acontece a paixão na vida?

Viver sem paixão parece que soa como não ter realmente vivido. Um paciente, Osny (nome fictício) vivia bem com a mulher e dois filhos, sem conflitos. Uma vida segura, confortável em paz. Mas  nunca se sentira apaixonado por sua esposa. E isso o incomodava. Quando os filhos estavam adolescentes resolveu investir em si mesmo, começou a se cuidar mais, melhorou sua auto estima  e se separou. Sempre há motivos para que se justifique uma separação.  Facilmente se elenca uma série de aspectos no outro que  irritam, gostos diferentes, sexualidades discrepantes, crenças incompatíveis, etc.  E assim foi e ele  validou a separação e, racional como é, teve forças para se separar. 

Podemos compreender mais profundamente o que fundamenta este valor que se geralmente se dá à paixão? O que está fundamentando esta busca por uma paixão?

Aparentemente esta busca pela paixão acontece porque achamos que ela nos tirará de uma continuidade segura mas tediosa, onde nos sentimos amortecidos ... e intuimos que viver uma paixão nos permitirá  tocar infinitas novas possibilidades de sensações e emoções e experiências que nos farão felizes.  

O que acontece de fato dentro do ser humano é que ele, por sua condição,  tem um anseio por se sentir evoluindo, abrindo novas possibilidades, rompendo uma continuidade repetitiva. Podemos dizer que este é um anseio por tocar o infinito. E uma das formas deste anseio é viver uma paixão amorosa.

Mas o ser humano é paradoxal (1),  e isso se revela também na sua vida amorosa: tem um anseio por ir além, quebrar a mesmice cotidiana e se apaixonar. Porém,  quando isso acontece, surge uma sensação de instabilidade, vem um medo da descontinuidade da relação. É paradoxal porque tem este anseio de ruptura ,e por outro lado, tem o anseio de se agarrar a um porto seguro e uma continuidade amorosa garante isso. Precisa também de um acolhimento estável.

Vejamos o que aconteceu com Osny: estando separado e aberto para uma paixão, se apaixonou por uma mulher que lhe dava esta sensação de vitalidade e de infinitas possibilidades de expansão. A nova namorada lhe agregava mais valor, mais Ser. Este foi  um momento bom, porque se sentiu acolhido e valorizado.

No entanto, sempre vem o outro lado. Nossas emoções sempre tendem ao infinito (2), ou seja, deixamos de poder controla-las, o que significa que sempre que  nos emocionamos de verdade entramos numa zona de perigo e angústia. E foi isso que Osny passou a sentir. Não conseguia mais priorizar seus filhos, seu trabalho, tudo parecia girar em torno do medo da instabilidade, do medo da descontinuidade da relação amorosa. O que era um anseio de liberdade, de abertura para o infinito se torna uma dependência onde se paga o preço que for para não perder, para assegurar a continuidade E se oferece algo ao amado é para se garantir,  receber em troca,  aumentar o nível de segurança ou seja, a oferta que é a essência da relação amorosa se perdeu.  Cobranças e ressentimentos chegam neste ponto. A submissão se torna um sofrimento infinito, pois nem ela garante a continuidade e renúncias cada vez maiores vão sendo exigidas ao ponto do insuportável.  Isso foi o que viveu Osny. E como com nossos medos e crenças construimos uma realidade, na percepção de Osny esta namorada o ia jogando numa sensação de instabilidade crescente.

Até que o sofrimento tendendo ao infinito trouxe Osny à terapia. E a  ruptura da relação com a namorada acabou acontecendo durante o tratamento e parece inevitável por enquanto. Mas ainda há muito a acontecer... é imprevisível como as coisas acontecerão.

No caso deste paciente, houve na sua infância uma ruptura grave: seu pai se afastou quando ele era pequeno e perderam praticamente o contato. Esta emoção de dor na criança beira a agonia infinita e por isso a traumatiza. Assim que para Osny quando teve coragem de romper seu casamento para viver seu anseio de paixão infinita, o resultado foi complicado: pois o medo da descontinuidade veio com toda força (medo da finitude), pois havia vivido uma descontinuidade traumática quando seu pai se afastou.

Desejamos a finitude de certas relações pelo nosso anseio do infinito mas ao mesmo tempo o tememos pela sua instabilidade. Este nosso paradoxo está atrás da busca pela paixão e do sofrimento que ela nos traz. E isso é da condição humana  e quando a este paradoxo ontológico se agrega um trauma biográfico (ôntico), como no caso de Osny, o sofrimento precisa  ser acolhido, compreendido e colocado em devir,  para que se possa dar um caminho para ele e não se estancar nele.  É esta a nossa tarefa clinica essencial. Para os suíços parece uma questão de maturidade emocional, algo que se ensinaria intelectualmente, mas me parece que o encaminhamento destas questões exige uma compreensão sentida e experienciada por todas dimensões da pessoa  que a clínica pode contemplar. Voltarei a este tema pois há significados do anseio por paixão que ainda não comentei aqui: o significado da busca da paixão como tentativa de obturar os nossos "buracos" internos, nossas vulnerabilidades e angústias. Até a próxima !

(1) Aulas do prof Dr Gilberto Safra. Disponíveis no site do Instituto Sobornost:  www.sobornost.com.br . Especialmente os cursos Teorias e Técnicas em Psicoterapia e Psicanalise ( 2005) e o Formação Clínica.

ACADEMIA CLINICA
Sonia Novinsky
Sonia Novinsky Seguir

Psicoterapeuta . Diretora do Centro Gary Craig de Treinamento em EFT Oficial no Brasil. Atendimento on line e presencial. Supervisão em grupo para EFT Oficial ( tapping e Optimal). Práticas grupais de EFT. Contatos pelo whats: 11999941415

Ler matéria completa
Indicados para você