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Enquadre clínico

Enquadre clínico

PERGUNTA RECEBIDA: Eu tenho um pouco de dificuldade de impor o enquadre. Eu morro de dó de uma paciente, ela só tem dinheiro pra fazer 2 sessões por mês, e ela é um caso que eu adoro atender, fico doida pra chegar o dia dela mas ela sempre atrasa, e aí eu só consigo fazer a sessão de apenas 40 min ou 50 min conforme foi o atraso. Eu acabo deixando e ficando mais tempo com ela. Queria entender melhor porque é tão importante e porque será que eu não consigo ser mais rígida.  

RESPOSTA DE SÔNIA: quero muito escrever mais sobre enquadre porque é peça fundamental no atendimento clínico. E aqui a preparação do terapeuta é a chave mais importante. Eu confesso que errei muito em termos de enquadre. Perdi pacientes que gostava muito por erros de enquadre. E só se aprende com a experiência. Teoria aqui não ajuda. Aprende-se enquadre sendo paciente e tendo que lidar com enquadre e errando enquanto terapeuta. Esta a parte mais difícil do atendimento clínico. A Psicanálise tradicional usa um enquadre rígido para poder interpretar a transferência. A rigidez permite a defesa se manifestar e assim se pode conscientiza-la e olhar a ferida profunda.  

Dentro da tradição winnicottiana, como ensina o professor Gilberto Safra nas suas aulas sobre clínica, assumimos um enquadre mais flexível, que se adapta às questões e ao estilo de ser do paciente. Se um paciente sofreu de abandonos, negligencia, e sente um desamparo muito grande, não podemos ter um enquadre muito rígido porque vamos retraumatizá-lo com uma dureza que ele viveu na infância. Mas um enquadre é sempre necessário e pode evoluir conforme o paciente evolui.

Quero voltar a este tema, mas respondendo a pergunta da terapeuta, em que se depara com os atrasos da paciente e, para não prejudicar a paciente, o terapeuta se prejudica a si mesmo, pois talvez tenha algum compromisso depois, e vai atrasar. A questão de horário, como todos os enquadres é também flexível. Você pode fazer sessões mais longas de mais de uma hora, se for necessário, mas não muito mais porque o cansaço do terapeuta precisa ser respeitado. Mas me chama atenção duas coisas: a paciente sempre chega atrasada apesar de ter só duas vezes sessão por mês. E a terapeuta fica com dó da paciente e adora atende-la. 

Acho que nesses casos é importante uma supervisão do caso, porque acho que a terapeuta precisa se conscientizar do que acontece com ela. Pena da paciente é um sentimento complexo, porque alem da empatia há uma desvalorização da pessoa do paciente. Temos pena quanto não a achamos com recursos para se defender. E isso é prejudicial ao paciente. Precisa o terapeuta se trabalhar para ver a origem desta pena. Esta impotência que o terapeuta está jogando no paciente não ajuda a evolução deste.

Trabalhar atrasos crônicos, conversando e descobrindo porque eles acontecem é liberador e podem resolver o problema. Qual o sentido destes atrasos crônicos? É preciso investigar melhor isso.Ver o quanto tem de defesas nestes atrasos.  A serviço de que defesa está esta falta de priorização da terapia para um paciente sem dinheiro que faz um esforço para fazer dois encontros por mês? 

Muita coisa pode mudar a partir da conversa sobre este tema. Que pode melhorar os atrasos. Mas o terapeuta precisa se cuidar também.  E o terapeuta precisa chegar no ponto de apostar na resiliencia do paciente para sanar seu conflito entre querer a terapia e chegar muito atrasado. E poder suportar fazer só quinze minutos, se for o caso. Quinze minutos neste caso pode valer muito mais do que um entendimento onde o terapeuta está menosprezando os recursos do paciente, e este está aumentando sua culpa, pois não está pagando pelo que está tendo, pois invade um horário que não é seu.

O paciente pode, isto é só uma hipótese, estar chamando atenção do terapeuta, devido a sua carencia, ou outro motivo, então ele está manipulando o terapeuta, que fica todo comovido, com dó, e o paciente está usando os atrasos para  controlar o terapeuta. 

Só um exemplo de tudo que pode acontecer! Por isso eu digo, o enquadre começa na preparação do terapeuta. Ali é que vc se libera de suas defesas mais agudas para poder se entregar para a relação com cliente sem projeções exageradas.  O terapeuta ser cliente, o terapeuta ser supervisionado por longos anos é essencial para criação do enquadre funcional, que respeita a rela[cão terapeuta no que ela tem de específico: um encontro de ajuda, mas onde a maior ajuda é resolver as defesas cronicas dos pacientes, e isso acontece sobretudo na interface entre terapeuta e paciente, como cada um lida com o outro. Alguma dúvida? Escrevam, comentem! 

 

 

ACADEMIA CLINICA
Sonia Novinsky
Sonia Novinsky Seguir

Psicoterapeuta . Diretora do Centro Gary Craig de Treinamento em EFT Oficial no Brasil. Atendimento on line e presencial. Supervisão em grupo para EFT Oficial ( tapping e Optimal). Práticas grupais de EFT. Contatos pelo whats: 11999941415

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